4/20/2018

Bonito


Maurício de Macedo

Diz bonito
porque diz verdadeiro.
Puxa de dentro de si a palavra
como quem puxa um peixe
debatendo-se no anzol.

Diz bonito
- volutas do peixe no ar,
escamas de prata
refulgindo ao sol.

Distante


Maurício de Macedo

Você olha tão longe
e pronuncia palavras
tonitruantes...

Você se debruça
no espelho da História
feito Narciso na fonte
e não consegue ver
nem ouvir
quem está perto de você.

Invasores


Maurício de Macedo

Entraram no prédio
da Academia Alagoana de Letras
- casarão que pertencera
ao poeta Jorge de Lima.
Roubaram a fiação elétrica
e o botijão de gás.
Não tocaram nos livros.
Antes de ir embora
defecaram no salão.

O poeta Jorge de Lima
deve ter dado boas risadas
ao saber que os ladrões
deixaram como lembrança
um montículo de cocô
para os verdadeiros invasores
que se apossaram da sua casa
fazia já alguns anos.

Pobre


Maurício de Macedo

O funkeiro rimou arrevesado
um discurso de vingança social.
E o intelectual disse
que o funkeiro era um grande poeta.

A menina foi estuprada
no baile funk.
E a líder feminista não disse nada.

Dai ao pobre o que é do pobre.
O político afirmou
que o chefe do narcotráfico
que dominava o morro
era um guerrilheiro revolucionário.

Em feitio de oração


Maurício de Macedo

- Rabiscar sempre,
teria dito o poeta Drummond.

Rabiscar
como quem reza diariamente.
Ainda que Deus jamais se digne
a responder,
tem um dia em que Ele pelo menos
escuta.


Elas não usam GPS


Maurício de Macedo

Não era o que ele queria
dizer.
E ficava no poema
a frustração do não-dito.
As palavras não usam GPS
- o conduziram por outro caminho,
ainda que o novo rumo
também fosse bonito.

Borboletas



Maurício de Macedo

Há versos adejando
como borboletas...
Estende as mãos aguardando
que venham pousar.

Ai, a agonia da espera
de que nas pontas dos dedos
palavras como flores
venham brotar.