10/12/2017

O artesão (O historiador oficial)

Maurício de Macedo

Quase mudos,
semblantes inexpressivos...
Contrataram o artesão
- uma máscara vistosa do passado.

Continuariam emitindo
os mesmos sons guturais
- a máscara não lhes daria voz.

5/07/2017

Na catraca

Maurício de Macedo

Quando não tinha dinheiro
para pagar a passagem,
passava pela catraca do ônibus
sem pagar,
enganando o cobrador.

Quando subiu na vida,
criou sua imagem no blog
- mentindo e omitindo -
para passar na catraca da História.
Não esquecera a arte que praticava

quando pegava o ônibus muitos anos atrás.

Bruxa

Maurício de Macedo

Para virar bruxa...
basta ser diferente e só
- basta não pertencer,
basta não frequentar.
É uma questão de tempo,
apenas.
E o infeliz não perde por esperar.
Não basta permanecer calado
e quietinho no seu lugar.
No seu silêncio há uma palavra,
há um grito,
a se apedrejar.
E um buraco sem fundo
no desejo
de quem apanha a pedra

para atirar.

Fugitivas

Maurício de Macedo

Palavras que você pronunciava
fugiram com você.
Inútil procurá-las nos dicionários.
(Deixaram irmãs-gêmeas no seu lugar.)

Algumas palavras, no entanto,
dormiam quando você partiu
(você esqueceu de acordá-las).
E ficaram perdidas
num canto qualquer da casa,
da rua,
da cidade,
do jardim...

Encontro, vez por outra,
uma delas
e lhe peço que fale do mundo
e de você.
Mas ela apenas sorri
muda
para mim.
Longe de você

desaprenderam a falar.

O lobo

Maurício de Macedo

Coincidência, talvez,
(falta de sorte)
ou quem sabe uma fragilidade
(coisa de bicho não adaptado
à seleção natural)...
O grande medo sempre veio
do Estado e de seus agentes.
Um lobo espreitando
na escuridão da noite
- olhos de fogo, dentes arreganhados...

Um inquietação dentro dele
parecia despertar o faro do predador.
Uma inquietação dentro dele,
independente do tempo e do lugar.
E sempre lhe parecia provisório
o abrigo que encontrava

no labirinto silencioso das palavras.

2/26/2017

Arqueólogo

Maurício de Macedo

Voltar
sabendo que eles  não se encontram.
Voltar em busca de palavras
enterradas no silêncio
como arqueólogo
em busca dos vestígios

de uma civilização perdida.

Sol

Maurício de Macedo

"Gente é pra brilhar"
Vladimir Maiakóvski

- Você não frequenta círculos
de escritores,
de intelectuais?!
- São ressentidos e feios...
Prefiro gente alegre e bonita.

Prefiro gente que gosta do sol.