7/10/2009

Palavras Tortas


Esse é o título do mais novo livro de Maurício de Macedo. O convite para o lançamento está aqui ao lado. Leia a poesia que deu título ao livro:

PALAVRAS TORTAS

O fogo de monturo dos dramas domésticos,
a amargura de uma cidade provinciana,
o ar rarefeito de uma repartição pública
e a pequena poesia que se recolhe
de um mundo tão acanhado,
a pequena poesia que mal expressa
o que se contordce no vácuo
e num enredo de nós cegos.

Não deve ser filosofia,
nem sabedoria, ao menos,
mas é com essas palavras tortas
que a gente caminha
como quem se apoia em muletas.

4/19/2009

Recado para o Frank

Frank deixou um comentário querendo adquirir o livro "A Água e a pedra". Não tenho o seu e-mail mas, se possível, entre contato com edbertoticianeli@globo.com que tenho uma boa informação para você.

3/01/2009

Apresentação

AS DESVENTURAS DA NEGRA FULÔ

Arriete Vilela (*)

Mauricio Macedo é um leitor atento, disciplinado - e compulsivo. Tem dois livros editados - Cinzel da Língua e Sínteses de Sombra - e mais quatro prontos, à espera de publicação.
Este - As aventuras da Negra Fulô - é um texto divertido, aparentemente leve e descompromissado, e bom para uma leitura oral ou dramatizada. À primeira vista, parece uma brincadeira cômica, pois o autor "brinca" com a Negra Fulô, famosa personagem fictícia do poeta alagoano Jorge de Lima, e com algumas personalidades reconhecidamente do domínio público.
Excetuando o Conselheiro Silva ("Mas todo o heroísmo não bastou! para vencer a sanha do agressor/ [...] Tragado por uma bomba,/ morreu Conselheiro"), Joaquim José ("Deputado das Minas Gerais/ representava a oposição/ e falava com voz mansa/ sobre trabalho, progresso e paz"), a Dra. Nise e o Dr. Artur ("que não receitavam drogas nem choque/ - condutas de horror -/ mas distribuíam tinta e pincel/ para os doidos") e Nossa Senhora ("Vai, Fulô, volta para o poema! Reza dez ave-marias e dez pai-nossos/ como penitência"), os demais personagens são tomados risíveis, burlescos, caricatos, pois à história real de cada um deles é acrescido um fato que lhes relativiza o caráter heróico conhecido oficialmente.
O texto, portanto, aparentemente cômico - ou justo por isso -, é crítico, irônico, pertinente: traz à tona, revisitadas e atualizadas, questões muito sérias que compõem a história da sociedade, como a cegueira do fanatismo religioso ("Todos queriam ver/ o choro e o riso da 'santa' na procissão"); o descaso e a conseqüente marginalização do autêntico folclore ("decidiram fundar no sertão/ uma cidade sagrada/ do folclore marginalizado"); a brutal violência contra travestis e prostitutas ("Vez por outra aparecia,/ jogado num matagal,/ com requintes de violência mais bruta,/ o corpo de um travesti/ ou de uma prostituta"); o abuso de poder, seja por desmandos de governos incompetentes e ditadores ("De um rebenque de cabo de prata/ não largava o interventor [...] E Maceió vivia a ordem/ sob a égide do rebenque do Pacificador/ não fossem alguns eventos estranhos/ que já causavam horror"), seja por questões injustas e pessoais ("[...] provocou na Primeira Dama! um ciúme muito grande./ E a Primeira Dama convocou/ o Secretário de Segurança para dar cabo de Fulô. [...] Furioso, o Secretário deu um tiro/ no peito da Negra Fulô.“), e o desvio de verbas para campanhas políticas, atividade paralela ao tráfico de drogas e lavagem de dinheiro ("Era um apartamento muito grande/ o de seu Paulo Calabar [...] Financiara até campanha/ de deputado federal [...] Por vezes vinham alguns homens/ entregar a seu Calabar/ uns pacotes bem fechados [...] E vinham depois outros homens/ apanhar os pacotes/ que guardara seu Calabar").
A sensualidade da Negra Fulô é um elemento reiteradamente ressaltado em todos os poemas e suas façanhas atestam o exercício da sedução mística, sendo, no entanto, devastadoras as conseqüências do seu don juanismo: suas aventuras amorosas finalizam sempre em trágicas desventuras (Passional, A conexão, O seqüestro, A lira, Diana). Como Don Juan, que dispunha de um cavalo veloz com o qual fugia e partia par a próxima conquista, a Negra Fulô, de Maurício Macedo, igualmente parte (ou foge) em "situações-limite" e se aninha no poema protetor de Jorge de Lima, até, naturalmente, a próxima aventura - ou, se preferirmos, até a próxima desventura.
Aliás, o próprio Jorge de Lima não escapa à sedução da Negra Fulô ("Fulô e o Dr. Jorge passaram a namorar,/ em lugares recatados/ na lagoa ou à beira-mar/ com direito a final de noite/ num quarto de motel ou na praia sob o luar.”). Um tórrido, embora efêmero, caso de amor que, segundo Maurício Macedo, antecede a criação do poema: ("Adeus, Jorge,/ que já parto para esquecer minha dor./ Quem sabe um dia eu veja/ os versos do seu amor?!").
O último poema - uma metáfora da própria vida - registra a única redenção possível: a poesia, através da qual os "seres não adaptados/ aos reclamos da modernidade" poderão salvar-se e reinventar o mundo.
O livro de Maurício Macedo presta-se a interpretações várias e muito mais detalhadas. Com a palavra, pois, os estudiosos da crítica literária.
* Arriete Vilela é escritora

As Aventuras da Negra Fulô

Engana-se quem pensa
que a Negra Fulô se contenta
em viver no poema tão belo
que Jorge de Lima criou.
A negra foge do poema, conhece novos personagens, ama, brinca, dança, luta,
morre, ressuscita...
Vive grandes emoções,
enfrenta grandes perigos...
E em situações-limite
retoma sempre ao porto seguro
- o monte das musas,
onde o tempo se traduz
em beleza e eternidade.

Acompanhemos, então,
a negra em suas aventuras que a Poesia tem razões que a História desconhece.

A Procissão

Encantada com a missa
na capela do engenho
onde não podia entrar,
A Negra Fulô fugiu do poema,
atravessou o tempo,
mais uma vez,
e entrou de mansinho,
no dia 27 de agosto,
na Catedral de Maceió.
Subiu no altar,
enquanto Nossa Senhora dormia,
tirou devagarinho
o manto e a coroa da santa
e se escondeu na sacristia.

Quando Nossa Senhora acordou,
ficou assustada
com o que sucedeu
e desceu à procura
do que era seu.
E quando a santa se afastou,
Fulô subiu no altar,
cobriu-se com o manto,
colocou na fronte a coroa,
assumindo pose de santo.
Mal a negra no altar se postou,
foram chegando à igreja
bispo, padres e beatas
para colocar a santa no andor.
Nossa Senhora se escondeu
(Não podia se apresentar
naquela situação).
E foi assim que a negra
foi levada em procissão.

O cortejo saiu pelas ruas
conduzindo a Negra Fulô.
Sobre a cor escura da santa
alguém comentou,
mas a fé relevou o detalhe
(Foi uma ilusão que passou).
E quando o menino disse à mãe
que Nossa Senhora era preta,
levou um cocorote e se calou.

Fulô ia feliz,
conduzi da pelo clero,
prefeito e governador,
majestosa sobre a massa,
carregando o seu andor.
Porém a negra
a emoção não controlou.
Lágrimas descerem dos olhos,
um sorriso de beatitude
em seu rosto se esboçou.
- A santa está chorando!
alguém gritou.
- Está sorrindo também!

outro arrematou.
E foi um Deus nos acuda
no meio da multidão.
Todos queriam ver
o choro e o riso da "santa" na procissão.

O andor balançava,
cai, não cai...
A negra despertou do torpor,
deu um pinote para a chão
e as pessoas gritaram:
- A santa pulou! A santa pulou!
Fulô ficou assustada
e desatou a correr
e o povo corria atrás dela,
querendo a "santa" reter.

Nossa Senhora,
que acompanhava aflita
no meio da multidão,
teve que recorrer ao Filho,
pedindo- Lhe intervenção.
Ergueu os olhos para o céu,
sobre o povo estendeu a mão.
O tempo voltou de repente;
tudo não passou de um sonho,
apenas uma ilusão.

Fulô se escondeu na igreja,
devolveu manto e coroa,
à santa pediu clemência.
Nossa Senhora sorriu,
dizendo com indulgência:
- Vai, Fulô, volta para o poema.
Reza dez Ave-Marias e dez Pai-Nossos
como penitência.

A negra voltou para o poema,
fez a penitência
e deitou-se sobre o velho saco de açúcar
no chão,
enquanto em Maceió as pessoas comentavam
sobre uma epidemia de sonho
que todo mundo sonhou
que Nossa Senhora era preta,
que chorou na procissão
e deu um pinote do andor.

Passional

A Negra Fulô levantou-se nuinha,
vestiu o cabeção
e saiu devagarinho do poema
para não acordar o senhor.
Saiu do poema
e atravessou o tempo
a Negra Fulô...

A negra atravessou o tempo
e foi trabalhar como doméstica
em Maceió.
Foi lá que conheceu Eusébio,
apelidado de Zumbi,
negro forte, de sorriso aberto,
que trabalhava de estivador,
depois de cortar cana
nas fazendas de União.

Conheceram-se numa casa de dança
na rua Barão de Atalaia,
onde havia muita briga
e até peixeirada.
Dançaram várias vezes,
durante muitas noites,
até que um dia ficaram de namoro
Zumbi e a Negra Fulô.
Mas não foi apenas Zumbi
que se encantou pela negra Fulô.
Virgulino, ajudante de pedreiro,
sertanejo de olho vesgo,
que escondia numa caixa
a cabeça murcha do avô,
viu Fulô pela primeira vez
quando foi trabalhar na obra,
perto da casa onde a negra se empregou.
E sua vista se escureceu
como no poema a vista do senhor.
Pensava na negra no ônibus,
no trabalho...
Sonhava com ela de noite.
De seu coração
tomava conta um negror.

Mas a negra nem ligou
para o olhar arrastado de Virgulino.
(Repara se ia querer
um homem feio daquele,
de olho troncho?!
E ainda por cima macambúzio...
Bicho do mato!)
Bom mesmo era o chamego
nos braços do estivador,
o sorriso aberto do negro
e o fungado no pescoço...

Como se não bastasse a sina
de carregar numa caixa
a cabeça murcha do avô,
Virgulino carregava agora
um punhal cravado no peito:
a indiferença da negra
ao pedido silencioso
dos seus olhos...
E aboiava baixinho
para as estrelas
nas noites solitárias.

Para aumentar o sofrimento
passou a freqüentar
a casa noturna onde a negra ia dançar.
E era uma tortura
vê-Ia bonita
nos braços do estivador,
os sovacos suados
e as coxas quase rasgando
a calça apertada.
O zarolho assuntava,
bebendo cachaça no balcão.
Olhava tímido pra negra
e a negra nem ligava.

Certa noite, porém,
encorajado pela bebida,
falou com a língua enrolada
quando a negra passou:
- Fulô, Fulô...
e mal se equilibrando nas pernas
apoiou-se sem querer
nos ombros desnudos da Negra Fulô.
- Te enxerga, enxerido!
assim a negra falou,
seguindo-se rapidamente
um soco do estivador.

O sangue escorreu do nariz de Virgulino
e trouxe-lhe à boca um gosto esquecido,
acendeu em seus olhos um fogo distante
como o sol na caatinga.
Um carcará gritou em seu peito;
segurou no cós da calça
o punhal que fora do avô
e depois foi apenas um golpe
no coração de Zumbi.

Virgulino foi preso,
condenado por homicídio,
mas deixaram que levasse consigo
a caixa com a cabeça do avô.
A Negra Fulô teve medo.
Fugiu para o poema,
retirou o cabeção
e se deitou nuinha
ao lado do senhor
que ainda dormia.

O Seqüestro

Indignada por ter levado
couro de feitor,
a Negra Fulô escapou da senzala,
ludibriando tempo e lugar,
e foi procurar trabalho,
muitos anos depois,
na cidade de Maceió.
Como não conseguiu emprego,
a negra foi disputar,
na avenida Duque de Caxias,
com prostitutas e travestis
um ponto no trottoir.

Maceió fora pacificada
por um interventor federal
que varrera da cena urbana
greves de operários,
passeatas de estudantes
e os excessos do Carnaval.
De um rebenque de cabo de prata
não largava o interventor.
Tantas cidades no Brasil já domara
que era chamado de Pacificador.

E Maceió vivia a ordem
sob a égide do rebenque do Pacificador,
não fossem alguns eventos estranhos
que já causavam horror.
Vez por outra aparecia,
jogado num matagal,
com requintes da violência mais bruta,
o corpo de um travesti
ou de uma prostituta.

Certa noite, já muito tarde,
quando fazia o trottoir,
Fulô foi abordada por um carro escuro
e convidada pra entrar.
Mal entrou no veículo,
levou uma coronhada
enquanto o carro seguiu rápido
levando a negra desmaiada.

Quando Fulô acordou,
estava amarrada,
numa cama velha,
numa sala escura fechada...
Até que de repente
a luz se acendeu
e por uma porta aberta
um homem apareceu.
Trazia na mão um rebenque
de cabo de prata
e foi logo batendo na negra,
enquanto dizia:
- Puta, a gente mata!
Batia à vontade,
parecia não cansar.
A negra gemia,
o corpo sangrava,
doía-Ihe a carne,
faltava-lhe o ar.
De repente, porém,
o homem parou;
dirigiu-se à porta
e bem alto chamou:
- Podem levá-Ia.
Por aqui, a festa acabou!

Fulô foi levada
num carro preto:
Dois homens e um revólver
apontado para o peito.
Súbito, porém,
dois faróis na contra-mão,
um choque, o carro virado
e os dois homens jaziam no chão.
Fulô saiu do carro
e seguiu o caminho do poema sem olhar para trás.
Nos versos, pelo menos,
poderia sonhar com o dia
em que a avenida Duque de Caxias seria chamada avenida da Paz.